C-O-M: Composição – O outro –Memória
É uma performance solo interativa, concebida e interpretada por Rita Vilhena, que dá continuidade à investigação artística iniciada em Raio de Ti / Multirising the Other in I (2023). Se nessa obra a artista partia de um território autobiográfico, aqui o foco desloca-se para a experiência do outro — interrogando as possibilidades de transmissão, incorporação e partilha de memórias e afetos entre corpos.
O projeto propõe um dispositivo performativo de expansão da subjetividade individual, onde o corpo da intérprete atua como medium de inscrição e atualização da alteridade. Em vez de uma construção formal fixa, a dramaturgia emerge no instante, a partir da escuta e da presença, afirmando uma coreografia do sensível que se desenha em resposta ao encontro.
A performance constrói-se como um espaço de indeterminação, em que as fronteiras entre intérprete e espectador se tornam permeáveis. O público é convocado a participar ativamente num campo de ressonâncias físicas e afetivas, onde o corpo se torna receptáculo e agente de uma materialidade imersiva. Entre movimento, som e projeção, o acontecimento transforma-se num ato de imanência sensorial, em que a performer experimenta a transitoriedade do outro.
Como aponta Marianne Hirsch, trata-se de um processo de pós-memória, em que as experiências e traumas são transmitidos através de gestos, afetos e ressonâncias corporais, mais do que por narrativas lineares. De modo convergente, Rebecca Schneider descreve esta dimensão como arquivo vivo, um campo de presença onde a memória se reinscreve performativamente através da partilha.
C-O-M instala-se, assim, como um território de suspensão ontológica, onde as identidades se dissolvem e recombinam num fluxo contínuo de significação. Ao abdicar de uma estrutura dramatúrgica pré-determinada, a criação investe na presença como processo, convocando o espectador a uma experiência de transmutação e co-criação.